sábado, 23 de julho de 2016

Dia de cruzar a fronteira para o Mexico!

25 e 26 de setembro de 2015

 

Dia de cruzar a fronteira para o México!, só que não.

Nosso plano hoje era enfim cruzar a fronteira para o México! Então já que não poderíamos cruzar a fronteira com o tanto de carne, vegetais e frutas que tínhamos, decidimos fazer um churrasco com vegetais cozidos as 10 da manhã, que foi quando achamos uma área de descanso com umas mesas e uma sombrinha.

Comer um churrasco as 10 da manhã foi estranho, talvez por isso meu corpo tenha reclamado...e embora eu tenha ficado doente com fatores nada relacionados com comida, minha energia acabou em Ocean Side, San Diego. Lá passamos o dia em um hotel da rede Best Western. Nós, já acostumados a dormir no Barnabé ou ao ar livre, achamos horrível sentir o cheiro de mofo dar coceira no nariz se o ar condicionado não estivesse ligado. Achamos o atendimento de lá bastante ruim e ficamos bem felizes ao deixar os Estados Unidos no dia seguinte depois de muitos meses viajando por lá.

Ai caramba! México lá vamos nós!

Tijuana: México lá vamos nós!
A fronteira do México não poderia ser mais confusa. Nos deixou mais preparados para o que encontraríamos no México, que amamos, mas claro, não se pode ver com os mesmos olhos que olham para os Estados Unidos. A beleza aqui não é como as coisas funcionam bem e são bem organizadas ou como é barato comprar bens manufaturados. A beleza aqui está na simplicidade e na facilidade deste povo em ajudar ao próximo, em acolher um desconhecido, em dar um jeito de driblar a pobreza e a falta de recursos e também na natureza linda deste lugar e na riqueza cultural.

Como tudo funciona na fronteira é impressionante. Não funciona. Pelo menos não para quem não é mexicano. Chegamos na fronteira por Tijuana, e um agente vai encaminhando as pessoas da fila para "baías" onde você aperta um botão, que tem a função de selecionar aleatoriamente quem vai ser revistado ou não. Nós não fomos selecionados, mas o agente olhou para o Barnabé e decidiu que nossa van deveria ser inspecionada pelo tanto de tralha que carregávamos. Putz, será que isso significaria tirar tudo do carro?? Íamos ficar o dia todo tirando coisas do barnabé se esse fosse o caso...

Para a nossa sorte, a inspeção era por raio-x! O carro entra num aparato que faz o raio-x e pronto! Foi rápido e fácil, nos surpreendeu positivamente. Nos liberaram e quando percebemos, estávamos no México. Ninguém pediu passaporte, ninguém pediu para ver os documentos do Barnabé, ninguém perguntou quanto tempo ficaríamos ou o que viemos fazer, nada de passar pela imigração e já estávamos no México rodando junto aos carros velhos e as casas pobres da fronteira, nos perguntando CADÊ A IMIGRAÇÃO???

Mas tínhamos plena ciência de que precisávamos achar a imigração para fazer a papelada de importação do Barnabé, ao contrário não poderíamos sair com o carro depois sem dores de cabeça. E claro, também precisávamos de vistos para a nossa entrada no pais.

Hoje quando saímos dos Estados Unidos tínhamos em mente sair cedo para caso houvesse contra-tempos na imigração do México, ainda nos restasse tempo suficiente para ir atrás de um lugar para dormir. Foi uma decisão sábia.

Vai soar exagerado, mas rodamos umas 3 horas indo e vindo naquela cidade atrás do posto de imigração. Placas? Claro que não. Pessoas diferentes nos davam informações diferentes de onde ir. Nosso guia indicava um local, mas aparentemente aquele lugar já tinha fechado e mais tarde descobrimos que o lugar era antes de fazermos o raio-x, e não vimos. Resolvemos ir até o aeroporto para ver se eles sabiam de algo, mas também nos mandaram para um lugar X, que não fazia nada relacionado.

Tentando chegar em um desses lugares que nos indicaram, decidimos perguntar, de dentro do Barnabé, para um carro também parado no semáforo. Por coincidência era uma viatura policial do estilo caminhonete. A policial carregava 4 crianças menores de 7 anos amontoadas no banco da frente e calmamente e detalhadamente nos explicou para onde seguir. O semáforo abriu e a policial continuou explicando com a maior calma. Os carros atrás buzinando e nós já não conseguindo prestar atenção no que ela falava. Quando o volume das buzinas aumentou ela ligou a sirene, os carros pararam de buzinar e ela continuou explicando calmamente. Ficamos ao mesmo tempo positiva e negativamente impressionados.

Um pouco depois, ainda tentando achar essa imigração acabamos chegando na imigração para entrar novamente em território americano por uma via secundária. Putz, imagina querer entrar nos Estados Unidos pelo México com o tanto de coisas que estávamos carregando!?  E ainda explicar o porque estávamos entrando nos Estados Unidos 1 hora depois de termos saído dele... Como a rua que viemos era uma rua secundária com pouco movimento, paramos para discutir sobre nossas opções (mais ou menos como: putzzz, f***! e agora???). Nisso um mexicano mal vestido de muletas  se aproximou perguntando para onde íamos.

Eu, brasileira de Guarulhos, sempre desconfio e penso duas vezes se eu respondo a esse tipo de pergunta. Uma porque em Guarulhos agente sempre pensa que vão te sequestrar, assaltar ou qualquer coisa do tipo e também porque ainda não havíamos estado no México e eu estava me perguntando se no México era como no Marrocos, que as pessoas oferecem ajuda e depois estendem a mão querendo dinheiro, mesmo que não tenham te ajudado em nada. Ainda bem que o Fe é menos preconceituoso que eu e respondeu à pergunta. E ele disse: não mas aqui é para entrar nos Estados Unidos, se você não quer ir para lá, volte por essa rua que você veio, mas devagarinho, porque essa rua é contra-mão. Novamente pensamos nas nossas opções, que a essa altura se resumiam a voltar para os EUA ou pegar a contra-mão em um país desconhecido.

Pelo trânsito caótico que vimos até então foi fácil decidir: contra-mão. O muchacho de muletas dizia: vai de frente mesmo, quer que eu peça para um menino ir na frente? Mas dispensamos o menino, agradecemos o muchacho de muletas que não pediu dinheiro nenhum e seguimos cautelosamente na contra-mão, sem problemas.

Muitas informações depois e achamos o escritório em que poderíamos tirar os nossos vistos (23 dólares por pessoa nos dava o direito de ficar 180 dias no país. E lá, uma muchacha nos deu orientações precisas de como chegar no escritório em que poderíamos importar nosso carro. Achamos curioso que a explicação dela incluía um posto de gasolina rosa. Depois descobrimos o porque. Os postos lá são todos da Pemex, sempre com a mesma fachada e preço, não sei bem como aquele posto rosa se mantem por lá.

Chegamos onde ela nos havia apontado e não achamos. COMO É DIFÍCIL ACHAR AS COISAS NESSES PAÍS!!! Já estávamos irritados outra vez, quando outro muchacho me viu tentando abrir a porta de um prédio, nos viu perdidos igual a uma barata tonta, e nos apontou para onde deveríamos ir. Enfim! Entregamos as cópias e as originais da carteira de motorista do Fe, documento do carro e um formulário, 59 dólares americanos de taxa e mais 200 dólares que só seriam devolvidos quando saíssemos do país e voilá! 3 horas depois e 359 dólares mais pobres e pudemos seguir viagem.

Nossa impressão do México até aqui é uma imagem parecida do Brasil dos anos 80/90. Além da desorganização, as pessoas dirigem como loucas, até quase batemos hoje. As rodovias até então muito esburacadas e mal planejadas, que as vezes parecia que o carro ia sair voando. E esse povo adora uma lombada, Virgem Santa! E claro, aqui parece que se pode fazer o que quiser, mesmo que não seja permitido. Mas em contra-partida os mexicanos são muito amigáveis e prontos a ajudar sem pedir dinheiro em troca, não só respondem quando perguntamos, mas também nos oferecem ajuda sem pedirmos (e isso foi não só para orientações do que fazer/ para onde ir, como também até trazer papel higiênico para o banheiro no escritório de vistos porque ela sabia que lá não tinha, claro, são pequenos gestos, mas que você não encontra em muitos países por ai..)

Também vimos vários carrinhos vendendo comida de rua que estamos loucos para provar! Amanhã vamos nos encher dessas besteiras!

O sttress passou e é hora de novo de achar um lugar para dormir. No fim da tarde achamos um camping a beira -mar, um lugar lindo! Decidimos ir ver como e quanto era: 17 doletas com chuveiro para banho, ótimo! Deve ser caro para o padrão mexicano, mas o público é essencialmente norte-americano e para quem vem dos Estados Unidos é muito barato =) a vista era sensacional. Paramos em uma vaga que dava acesso direto para a praia.

Salsipuedes Bay, Baja California Norte, Playa Saldamando Campground: Entrada do camping.
Salsipuedes Bay, Baja California Norte, Playa Saldamando Campground: onde acampamos, de frente para a praia.

Salsipuedes Bay, Baja California Norte, Playa Saldamando Campground: nosso quintal hoje.

Salsipuedes Bay, Baja California Norte, Playa Saldamando Campground: de um lado o mar, do outro, deserto.

Salsipuedes Bay, Baja California Norte, Playa Saldamando Campground: retrato da felicidade para nós.

Absolutamente ninguém no camping ou na praia. Estacionamos, larguei minha máquina no carro aberto, tirei o vestido e fiquei de calcinha e sutiã na praia e o Fe de cueca! Pura sensação de liberdade sem nos preocupar com alguém roubando nosso carro ou com alguém nos vendo. Vimos o pôr-do-sol deitados na areia. Sem preço.

Depois chegou a hora do banho, e esse me decepcionou muito. A água era fria. Entrei no banho e pensei: vou tirar o sal do meu sutiã e da minha calcinha primeiro, e comecei a lavar. Nisso o Fe gritou do banheiro ao lado: essa água é salgada!

Droga... molhei mais ainda minhas coisas e acho que eu só coloquei mais sal nelas. O banho foi frio e salgado, então não gostei. Parece que a água vem da cunha salina, então fica menos salgada na época das chuvas.

Jantamos com a luz das estrelas e dormimos com o murmurar do mar, valeu a dor de cabeça do dia e o banho frio salgado.